Desde que mudou de casa as noites parecem-lhe mais longas que o habitual.
Dá voltas e voltas na cama e o sono não chega, já experimentou de tudo, desde beber leite morno a ler até adormecer... Ler até funciona, mas nem chega a dormir uma hora. E hoje está mais inquieta que o normal, levanta-se vai à cozinha buscar um copo de leite e senta-se no sofá com o computador no colo, lê os mail's, navega sem qualquer tipo de intuíto, é mesmo só para ocupar o tempo.
Resolve abrir uma página de uma sala de chat, nunca o fez e como tal teve alguma dificuldade em conseguir entrar, a intenção é falar com alguém do estrangeiro imagina ela que ás quatro da manhã só irá encontrar pessoas online da Austrália ou dos EUA... Mas não!
Estão três pessoas e nenhuma delas é estrangeira, fica quieta não mete conversa com ninguém mas não passa despercebida, alguém lhe diz bom dia.
Ela sorri... Bom dia??? Pois... quatro da manhã é efectivamente bom dia.
Responde boa noite, e começam a conversar.
Falam sobre tudo, profissão, clima, política, até falam do Papa e de filhos que não têm, a conversa é boa, ele parece-lhe uma pessoa inteligente e gentil, o que faz caír por terra o clichê de que salas de chat são salas de engate.
Ela não procura isso, e espera que ele não vá por aí... E não foi.
Reparou que já passava das cinco e meia e precisava preparar-se para trabalhar, despediu-se com a promessa de voltar.
Tomou um duche rapido, vestiu-se e saíu de casa, ainda a esperava quase uma hora de percurso e não queria apanhar fila na ponte.
Mas o maldito elevador resolveu trocar-lhe as voltas e não descia, ficou mais de cinco minutos parado no piso superior, já estava a ficar irritada quando ele começa a descer, abre a porta e depara-se com um jovem todo sorridente a olhar para ela, tive um contratempo com o meu cão disse desculpando-se.
Se não fosses tão bonito respondia-te à letra, pensou ela, mas hoje até estava bem disposta.
As conversas no chat com o desconhecido tornaram-se uma rotina que ela fazia questão de não quebrar, as madrugadas tinham um outro sabor.
Ele sempre a respeitara, e ela sentia-se bem com a companhia dele.
Entretanto fez amizade com o vizinho de cima, o cão um dia fugiu ela encontrou-o na entrada e foi leva-lo a casa, foi convidada a tomar um café, e a partir daí já eram assíduos em ambas as casas. Ele tinha 28 anos e era solteiro, tinha chegado há pouco tempo do Porto para ocupar um cargo na sede da empresa em Lisboa, ela tinha 35 e tinha saído de um relacionamento de vários anos, a diferença de idades era notória mas a amizade era verdadeira.
Passaram-se mais de seis meses...
Enquanto a amizade com o vizinho crescia, a atracção pelo desconhecido do chat ía ficando incontornável e já nenhum dos dois o escondia.
Para não haver complicações para ambos, escolheram encontrar-se em zona neutra num centro comercial em frente a uma loja bastante conhecida.
Ela chegou antes da hora marcada queria estar mais calma quando ele chegasse.
Ele estava sentado no banco do corredor à espera que a sua vizinha fosse embora, não queria ter de explicar o que o levara ali.
Ela mantinha-se encostada ao parapeito do piso mesmo em frente à loja.
Ele olhava para o relógio com inquietação, ela não iria aparecer... E a sua vizinha que não saía do mesmo sitio, raios, pensou ele.
Agarrou no telefone, ela tinha-lhe pedido só para a contactar em último caso, ele achava que este era o momento, afinal ela estava atrasada mais de meia hora. O telefone tocou na mala, demorou a encontra-lo, era ele...
-Estou...
-Olá...
-Não vens? Perguntou ele. Estou sentado num banco em frente ao local combinado, no outro lado do corredor
-E eu estou no local combinado, disse ela enquanto se virava para olhar para o outro lado.
Olharam-se incrédulos durante alguns segundos ainda com o telefone ligado... até que o susto deu lugar a gargalhadas... muitas gargalhadas.
Bia
ResponderEliminarCreio que alguém 'lá atrás' sugeriu a feitura de um livro com todas as estórias que um dia farão parte da história.
Tenho vindo a ler, em silêncio, mas hoje decidi entrar e deixar o desafio.
A escrita é muito boa. Na forma e no conteúdo.
Vamos pensar nisso? Vale?
Bjs
Obrigada Observador pelas palavras de incentivo.
EliminarMas eu sou apenas alguém que gosta de escrever breves "estórias" sobre a vida...
Nunca me passou pela cabeça ver isto publicado.
Beijinhos, volte sempre.