Dizem que escrever é uma forma de Auto amor.

Mas eu acho que escrever nada mais é do que emprestar a própria atenção a si mesma.

É o olhar para dentro, e ver o que temos de mais íntimo e criativo dentro de nós.

Já ouvi por aí dizer que “escrever poupa-nos idas ao psiquiatra”.

Assim sendo…

Pouparei decerto idas ao psiquiatra. E espero com isso levar alegria e amor a todos vocês.

segunda-feira, 25 de março de 2013




Ele tinha uma rotina diária que a irritava profundamente, abrir a persiana mal acordava, ela já tinha perdido a conta ao número de vezes que lhe pedia para não o fazer, mas ele pura e simplesmente ignorava.
Com aquele gesto diário ele insinuava que a opinião dela valia zero.
Com os olhos semi cerrados olhava-o a movimentar-se no quarto. Houve momentos em que aquela imagem permanecia com ela durante todo o dia, e a hora de chegar a casa era uma alegria.
Agora já não. Ela tenta sempre atrasar a hora de voltar, seja com uma ida ao cabeleireiro, seja com reuniões fora de horas ou mesmo uma visita a uma amiga (inventada)que ele não conhece e que precisa de ajuda.
Mas essas horas são passadas à beira rio. Ali tarda o regresso, atrasa discussões e esquece da vida.
Já o amou demais... Por ele discutiu com os pais, abandonou a aldeia onde nasceu, deixou a escola e os amigos  e encerrou uma parte da sua história. Ir viver para a capital sempre tinha sido o seu sonho de menina. Mas Lisboa embora fosse uma cidade grande tornou-se sufocante, e ela sentia saudades...
Ele mudou... Mas ela também mudara...
A menina que chegou a Lisboa já não existe mais, disso ela tem a certeza. Do que ela não tem a certeza é se o deixou de amar, ou se é só uma fase. As novas amigas dizem que é normal acontecer, que ele tem uma vida ocupada mas que a adora.
Só que para ele já é tarde demais, ela tem tudo planeado. Fingiu dormir quando ele chegou perto para lhe dar um beijo na testa. Houve alturas que aquele beijo a incendiava e ela procurava sempre mais,  ele sorrindo dava-lhe todos os que ela pedia. Agora finge dormir... tudo mudou.
Mal ouviu a porta do prédio fechar agarrou na mala e começou a enchê-la de roupa, não levaria mais que o que trouxera, os vestidos, sapatos e casacos que ele lhe tinha comprado ficavam no armário. Nunca tinha sido feliz com eles, sempre se sentiu um troféu e isso incomodava-a.
Pegou numa folha e escreveu:
"Por favor não me procures, preciso voltar a sonhar. Não te culpes, quando o amor morre a culpa não é de ninguém. Sê feliz."
Pegou na mala e no casaco e saíu. A estação dos comboios seria o próximo destino, depois a aldeia onde foi feliz.
Ele tentou ligar-lhe durante todo o dia, ela não atendeu. Não sabia porquê, mas sentia um aperto no peito e uma vontade enorme de largar tudo e ir para casa, mal a reunião terminou pegou no carro e lançou-se na estrada como nunca o tinha feito. Mal abriu a porta pressentiu que algo estava errado, as chaves no cinzeiro denunciavam que ela estaría em casa, mas a escuridão tinha um peso que ele não conhecia.
Chamou-a... e nada!
Ficou em pânico, correu todas as divisões mas só quando entrou no quarto é que viu o bilhete em cima da cama, leu-o...tornou a ler... e chorou como uma criança. Ele tinha descuidado da mulher que amava e agora perdera-a para sempre. Chorou até que o cansaço o venceu.
Ela acordou quando o comboio anunciou a chegada à aldeia, sorriu... pela primeira vez em muitos meses sentia-se em paz, agora tinha a certeza que já não o amava...



1 comentário:

  1. Calculo que o que acabaste de descrever seja uma realidade mais frequente do que se possa imaginar na vida de muitos casais.
    As pessoas dão o amor por garantido e acabam por se desleixar. Mas o amor é algo que tem de ser alimentado todos os dias. Depois quando acordam para a realidade por vezes já é tarde demais...

    Adorei o texto! Continua! :)

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