Dizem que escrever é uma forma de Auto amor.

Mas eu acho que escrever nada mais é do que emprestar a própria atenção a si mesma.

É o olhar para dentro, e ver o que temos de mais íntimo e criativo dentro de nós.

Já ouvi por aí dizer que “escrever poupa-nos idas ao psiquiatra”.

Assim sendo…

Pouparei decerto idas ao psiquiatra. E espero com isso levar alegria e amor a todos vocês.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A azáfama nos bastidores do evento é tão grande que podia equiparar-se a Paris, Milão ou Nova Iorque, mas não… é Lisboa, depois de alguns anos ela está de regresso à cidade que a viu nascer. Sentada na mesa de maquilhagem olha fixamente para a frente, embora lá esteja um espelho, Haras não se vê reproduzida nele, o seu olhar acompanha a sua mente numa viagem à infância.
Nascera numa comunidade pobre na periferia de Lisboa, filha de mãe holandesa e pai africano. Cedo descobriu que não iria ter uma vida fácil, o seu pai morreu quando ela tinha 5 anos e a partir daí tudo se complicou quando a mãe começou a chegar a casa cada vez mais tarde, deixando-a aos cuidados da avó paterna.
Haras (nome escolhido em homenagem à avó materna {Sarah} que ela nunca conheceu), tinha os olhos verdes da mãe e a tez morena do pai, que lhe dava um ar estranho, e que a fazia chorar compulsivamente sempre que era alvo das brincadeiras dos colegas.
[Mais tarde viria a descobrir que o seu ar estranho em Paris se chamava exótico].
Sempre fora uma criança tímida, que preferia ficar em casa em vez de brincar na rua, escondia-se no quarto humilde e sonhava em ser actriz. Quando tinha 10 anos a mãe morreu de overdose e ela foi entregue definitivamente à guarda da sua velha avó, estava só no mundo!
Quando tinha 15 anos foi passar uma temporada na praia ao abrigo de uma instituição que ajudava crianças órfãs, de manhã ajudava a cuidar dos mais novos e à tarde aproveitava para tomar longos banhos de mar. Foi numa dessas idas à praia que conheceu alguém que mudaria a sua vida para sempre.
Ana era fotógrafa de uma conceituada marca de lingerie e viu naquela adolescente uma modelo com potencial. Alta, pernas longas, magra, morena sem chegar ao tom mulato e olhos tão verdes como aquele mar ao final do dia…
Haras lembra-se do dia em que ela lhe perguntou se lhe podia tirar umas fotos, encolheu os ombros e movimentou a cabeça afirmativamente, simplesmente não se importava.
A partir daquele dia tudo mudou, viu a sua avó assinar uns papéis, mandaram-na fazer a mala e seguiu com a fotógrafa num carro enorme rumo a Paris.
Foi viver num apartamento com mais três raparigas, estudava de manhã numa escola de moda e praticava à tarde numa passerelle de um velho teatro. Viveu dias difíceis, chorou noites inteiras com saudades da avó, mas sobreviveu e venceu. Desfilou para os maiores costureiros do mundo, viveu em Milão, Munique e Nova Iorque, Paris era a sua casa, nunca mais voltou a Lisboa e não tinha perdoado a avó por a ter cedido aquela gente.
Hoje tem um estatuto que poucas conhecem, é modelo exclusiva da Casa Versace.
Hoje tem um camarim só dela, uma cadeira forrada a veludo verde, e fotos espalhadas pelo mundo.
Hoje tem uma conta bancária com tantos zeros como a idade que tinha quando perdeu a mãe.
Hoje tem quase trinta anos… e continua só…
Hoje escolheu Lisboa para encerrar a sua carreira de modelo.
Hoje será a última a desfilar, encerrará o desfile com um modelo de noiva exuberante.
Hoje fará as pazes com o passado…
Batem-lhe à porta anunciando que está na hora, ela levanta-se lentamente, calça os sapatos, olha-se mais uma vez ao espelho, retoca o batom, agarra com as duas mãos no vestido imaculadamente branco e lança-se no corredor que a levará à derradeira viagem pela passerelle.
Os fotógrafos acotovelam-se para conseguir a melhor foto, as pessoas cochicham entre elas, Haras não sabe se falam dela ou do vestido, dá mais duas voltas e regressa com todas as modelos e o estilista, agradecem ao público e retiram-se…
Respira fundo, e dirige-se apressada para o camarim. Declina o convite para o cocktail alegando sentir-se cansada, no fundo quer fugir dos paparazzi e das perguntas indiscretas. Veste umas calças de ganga, uma t-shirt, calça uns ténis, retira toda a maquilhagem, apanha os cabelos num coque pega na mochila e sai. Já na rua procura um táxi, aquela hora não é fácil, afinal está em lisboa e não em Nova Iorque, sorri e caminha pela avenida até que aparece um, faz-lhe sinal e ele para. Sorri-lhe, mas ele não retribui, pergunta-se se estará aborrecido pela hora tardia se pela cor dela. (Poucas coisas mudaram em Lisboa). Entra no táxi e diz-lhe o destino, agora sim ele está mesmo aborrecido, Haras nota que ele resmunga e ela sorri por dentro. Passados uns minutos ele pára o táxi:
"Pronto menina, chegamos a Chelas, não sei se reparou que é madrugada, este local não é seguro, tem a certeza que quer ficar aqui?"
Tenho! Eu nasci aqui, responde com orgulho.

2 comentários:

Deixem umas palavras ao vento...