Dizem que escrever é uma forma de Auto amor.

Mas eu acho que escrever nada mais é do que emprestar a própria atenção a si mesma.

É o olhar para dentro, e ver o que temos de mais íntimo e criativo dentro de nós.

Já ouvi por aí dizer que “escrever poupa-nos idas ao psiquiatra”.

Assim sendo…

Pouparei decerto idas ao psiquiatra. E espero com isso levar alegria e amor a todos vocês.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Encontrava-o todos os dias na estação de metro, sempre de fato e gravata e a ler o jornal, não era bonito de morrer, mas havia algo nele que a fascinava.
Não sabia se era o ar misterioso, ou o charme que emanava a cada gesto.
Parecia estar perto dos quarenta anos, mas podia muito bem ter mais ou menos, ela nunca fora muito bem a designar idades, mas isso não lhe interessava.
Um dia sentou-se ao lado dele só para olhar para as mãos, tinha um anel de curso, mas nada de aliança (claro que isso também não era sinónimo de nada) ela estava fascinada por ele e ninguém a demovia de tentar saber quem era, onde trabalhava e principalmente se era comprometido. Mas o facto de ele nem reparar nela não ajudava muito.
As amigas riam da "paixão" pelo homem do metro, mas ela nem ligava.
Ele fazia um esforço enorme para não olhar para aquela menina que todos os dias encontrava no metro, ela pouco passava dos vinte e ele aproximava-se a passos largos para os quarenta (faltavam 15 dias). Mas os fascínio crescia a cada dia, e estava difícil de controlar a vontade de meter conversa.
Chegava cedo ao metro, podia apanhar dois antes de ela chegar, mas se o fizesse perdia a chance de vê-la chegar a sorrir com as amigas, gostava do ar descontraído e rebelde, os cabelos eram longos e negros e estavam quase sempre apanhados, quando não estavam ela arranjava maneira de os prender com o lápis durante a viagem, como se a incomodassem e ela nem ligasse ao pormenor de ter os cabelos mais lindos que ele jamais vira. Assim como não se importava de se sentar no chão com as calças de ganga já roçadas enquanto estudava um livro técnico de engenharia. Desde o primeiro momento ficou encantado por aquela menina, de vez em quando os olhares cruzavam-se e ele sentia um aperto no peito, aqueles olhos negros perseguiam-no durante todo o dia e ele logo desviava o olhar como se ela fosse só mais uma no metro.
Um dia foi promovido e mudou para o Porto, nunca mais a viu.
Um dia ela acabou o curso e voltou para a cidade natal.
E assim se passaram quase dez anos, ele nunca a esqueceu, ela lembrava-se dele de vez em quando...
O director pediu-lhe para o substituir num jantar com dois gerentes bancários, ela sabia muito bem negociar empréstimos e juros, isso não a incomodava e até gostava de os ver ceder, depois de horas de argumentos que ela tão bem defendia.
Depois de levar toda a tarde a juntar relatórios e a fazer contas quando deu por isso já era bastante tarde, só teve tempo de tomar um duche, maquilhar-se um pouco e escovar os cabelos negros que já passavam dos ombros e ela nunca tinha tempo para cortar.
Quando ele chegou já o colega e concorrente o aguardava, cumprimentaram-se e começaram a conversar sobre o assunto que iria ser debatido.
-Prepara-te que vem aí uma Dra, o Eng. não pode vir. Sabes como elas são dificeis de negociar...
-Ui... respondeu ele, a noite promete... deve ser uma daquelas solteironas ressabiadas que odeiam homens. E desataram os dois a rir enquanto bebericavam um Martini.
Ela estacionou longe, o parque do restaurante estava cheio, estava vento e começava a chuviscar, tudo contra mim (pensou ela) quando entrou no restaurante despiu o casaco, ajeitou os cabelos e perguntou qual a mesa reservada pela empresa, quando indicada ela olhou de soslaio e viu dois homens de fato já sentados, o que estava de frente para ela era jovem, ela até o achou jovem demais para aquele assunto, mas depois pensou nela propria e não fez juízos de valor sobre a idade, o outro que estava de costas parecia mais velho e o cabelo já picava o branco.
Encaminhou-se para a mesa, disse boa noite, cumprimentou-os com um aperto de mão, identificou-se e sentou-se.
Ele congelou no momento... Era ela, a menina do metro, a menina das calças roçadas e cabelos negros apanhados, só que agora ela usava uma saia justa e uma camisa aberta que deixava antever um dos seios, mas o cabelo era o mesmo...
Ela olhou para ele, a cara era-lhe familiar mas não conseguia ver de onde...
Até que a meio do jantar os olhares encontraram-se e ela finalmente associou o homem à sua frente à sua "paixão platónica" do metro quando tinha vinte anos.
Sorriu para ele, ele retribuiu... a noite ía ser longa...


4 comentários:

  1. Uma estória muito bem contada, Bia.

    Bj

    ResponderEliminar
  2. Obrigada Observador.
    Não tenho grandes pretensões, só gosto de imaginar e escrever.

    um beijo para si.

    ResponderEliminar
  3. começo a viciar-me nas tuas historias

    ResponderEliminar
  4. Ainda bem Eve, pelo menos alguém me lê.
    Beijos

    ResponderEliminar

Deixem umas palavras ao vento...