Dizem que escrever é uma forma de Auto amor.

Mas eu acho que escrever nada mais é do que emprestar a própria atenção a si mesma.

É o olhar para dentro, e ver o que temos de mais íntimo e criativo dentro de nós.

Já ouvi por aí dizer que “escrever poupa-nos idas ao psiquiatra”.

Assim sendo…

Pouparei decerto idas ao psiquiatra. E espero com isso levar alegria e amor a todos vocês.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Acordou com a voz do filho que lhe perguntava:
-Estás bem mãe, dormiste no sofá?
-Não meu querido, acordei mais cedo para fazer uns relatórios e acabei encostada no sofá. Vai lá tomar o pequeno almoço senão chegas tarde à escola.
Ficou a olhar para o filho enquanto ele se dirigia para a cozinha, estava a ficar um homem, ombros largos e voz grave, e mais uma vez a presença do João fez-se notar, quando o viu andar de um lado para o outro da cozinha coçando a cabeça meio desnorteado.
O João coçava a cabeça, sempre que na escola lhe era feita uma pergunta mais difícil.
O seu filho fazia o mesmo, sempre que não encontrava o que queria ou quando estava nervoso.
Até ontem ela achava engraçado todas essas semelhanças, hoje parece-lhe que o passado entrou porta dentro como um furacão sem pedir licença, estava desprevenida e ficou sem reacção. E se havia coisa que ela detestava eram surpresas. A vida já a tinha surpreendido vezes demais até que ela começou a aprender a tomar as rédeas do seu proprio destino. Assim pensava...
Levantou-se do sofá como uma enorme dor de cabeça, e foi tomar duche.
A vida não tinha estagnado e ela precisava ir trabalhar. Saíram os dois juntos de casa, levou o filho à escola e foi directa para a empresa, uma reunião importante aguardava-a.
Durante todo o dia as palavras da amiga não lhe saíam da cabeça, a sua mãe estava doente...
Só Deus sabe como ela gostava da mãe, mas nunca lhe tinha perdoado o facto de não ter enfrentado o seu pai naquela noite para a defender, afinal ela só tinha 17 anos e precisava daquela mãe mais que nunca mas a mãe não abriu a boca nem quando o seu destino foi traçado.
Saíu mais cedo do trabalho e dirigiu-se ao Central Park, gostava de pensar enquanto via as crianças divertirem-se na pista de gelo, ali sentia-se um pouco mais perto do Douro, o cheiro a terra molhada dava-lhe paz e era isso que Sofia precisava para tomar a decisão da sua vida.
Pensou na sua mãe debilitada numa cama de hospital, frágil... ela sempre fora frágil, mas agora devia estar pior. Gostava de a ver, nem que fosse para lhe perguntar como tinha sido a sua vida durante 15 anos sem saber da sua única filha, se tinha dormido em paz durante estes anos.
Pensou no João, já devia ter uma familia e concerteza nunca mais se tinha lembrado dela.
(A única pessoa com quem mantinha contacto era a amiga que lhe telefonava ás vezes, mas tinha ficado decidido que ela nunca falaria dos pais ou do João, era a regra para manterem contacto, e a amiga tinha cumprido, até à doença da mãe)
Pensou no pai, aquele homem rude e frio que tinha cruelmente assassinado todos os seus sonhos.
Pensou no filho, aquele ser que ela tinha gerado contra tudo e contra todos, aquele menino meigo que ela amava acima de qualquer outra pessoa, aquele adolescente ás vezes tão rebelde mas que a fazia renascer a cada amanhecer quando entrava de rompante no seu quarto para a beijar até ela acordar.
Era por ele que Sofia vivia, fora por ele que ela recusara as várias investidas do seu colega, e foi por ele que ela abandonou tudo. Para que aquele ser que ela nem conhecia ainda, pudesse vir a este mundo.
E seria também por ele que Sofia não voltaria a Portugal.
Nada era mais importante na sua vida, a Sofia que nasceu e cresceu à beira do rio Douro morreu no dia que o pai a expulsou de casa. Agora só existia ela e o filho, que era sem saber, fruto do único amor da vida da sua mãe.

{The End}

5 comentários:

  1. Escreves muito bem! Parabéns pela história!!

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  2. Amei. fiquei agarrada ao ecrã até á ultima palavra.

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    1. Bem vinda Eve, obrigada.
      Não sei se reparaste mas são 3 textos num só :)

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    2. só percebi kd comecei a ler o segundo..lool comecei do fim

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