Dizem que escrever é uma forma de Auto amor.

Mas eu acho que escrever nada mais é do que emprestar a própria atenção a si mesma.

É o olhar para dentro, e ver o que temos de mais íntimo e criativo dentro de nós.

Já ouvi por aí dizer que “escrever poupa-nos idas ao psiquiatra”.

Assim sendo…

Pouparei decerto idas ao psiquiatra. E espero com isso levar alegria e amor a todos vocês.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Ao atender o telefone que insistentemente exigia atenção, o seu mundo desabou.
Entre soluços e lamentos, a voz do outro lado da linha, informa-a que o seu amigo, o seu companheiro de jornada, seu ombro amigo, havia sofrido um grave acidente, vindo a falecer quase que instantaneamente.
Desliga o telefone e caminha a passos lentos para o  quarto, seu refugio particular.
Logo um conjunto de imagens vieram à sua mente... a faculdade, as bebedeiras, as conversas em volta da lareira até altas da madrugada, os amores não correspondidos, as confidências ao pé do ouvido, a cumplicidade, os sorrisos...ahhhhhh, os sorrisos...como eram fáceis de surgir naquela época. Lembrou-se da queima das fitas, de um novo horizonte que surgia... das lágrimas na hora da despedida! E principalmente das promessas de novos encontros.
Conseguia visualizar cada feição dele, nos seus olhos ela tinha a promessa de que nunca seria esquecida.
E realmente nunca foi… Perdeu a conta das vezes em que ele carinhosamente lhe ligava, quando sabia que ela estava no fundo do poço... Ou das mensagens, (que nunca respondeu) que ele constantemente enviava enchendo o seu telemóvel de esperanças e promessas de um mundo melhor.
Lembrou-se que foi no seu ombro que chorou a morte do seu pai. Lembrou-se ainda que foi no seu ouvido que derramou as lamentações de uma relação que não vingou e que foi o seu rosto que viu quando acordou de uma cirurgia.
Fez um esforço para vasculhar na sua mente, mas não conseguiu lembrar-se de uma só vez em que tenha pegado no telefone para lhe ligar e dizer o quão importante a sua amizade era para ela.
Afinal era uma mulher muito ocupada.
Não tinha tempo…
Não se lembrava de ter feito qualquer tipo de surpresa, como aparecer de repente com uma garrafa de vinho e um coração aberto, disposto a ouvir.
Não tinha tempo…
Não se lembrava de ter dispensado um só dia para ouvir os seus problemas, acho que nunca imaginou que ele tivesse problemas. Nunca se dignou a reparar que constantemente o seu amigo passava da conta na bebida, até achava divertido o seu jeito bêbado de ser, afinal ele era sempre uma óptima companhia...
Só agora vê claramente o seu egoísmo. Talvez - e este "Talvez" vai acompanha-la eternamente, se tivesse descido do seu pedestal egocêntrico e prestado mais atenção, o seu amigo não teria bebido demais e não teria jogado a sua vida fora, ao perder o controle de um carro que com certeza não tinha a mínima condição de conduzir.
Nunca pensou que ele, a pessoa que sempre inundou o seu mundo com a sua iluminada presença, se estivesse sentindo só. Até mesmo as mensagens engraçadas que ele constantemente deixava no seu telemóvel, poderiam ser o seu jeito de pedir ajuda...
Aquelas mensagens que ela apagava quase de imediato, jamais se apagarão da sua consciência. Estas indagações que inundam agora o seu ser, nunca mais terão resposta. A sua falta de tempo impediu-a de respondê-las.
Agora, lentamente escolhe uma roupa preta, digna do seu estado de espirito e pega no telefone. Avisa o chefe de que não vai trabalhar hoje e quem sabe nem amanhã, nem depois...
Irá tirar o dia para homenagear com o seu pranto uma das pessoas que mais amou na vida.
Ao desligar o telefone, repara com surpresa, entre lágrimas e remorsos, de que para isto, para acompanhar durante um dia inteiro o seu corpo sem vida, ela terá tempo!
Descobriu naquele dia, que se não tomar as rédeas da sua vida, o tempo engole-a e escraviza-a.
Trabalha com o mesmo afinco de sempre, mas somente é profissional durante o horário de expediente, fora dele,é um ser humano!
Nunca mais uma mensagem ficou sem pelo menos um "Olá" de resposta.
Tenta enviar sempre aos seus amigos diversas mensagens de amizade. Escreve postais de Feliz aniversário e de Natal, lembrando sempre como essas pessoas são importantes para si.
Abraça constantemente a mãe e família, pois os laços que os unem são eternos.
Porque esses momentos costumam desaparecer com o tempo, e todo o cuidado é pouco.
Ela aprendeu da pior maneira possível…

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ela não esperava que ele se lembrasse.
Ele sabia que era o aniversário dela, lembrava-se até da hora em que ela tinha nascido. Andou todo o dia com o telemóvel na mão, no visor lia-se o nome dela, mas faltava-lhe o mais importante… a coragem para finalizar a chamada.
O dia já ia longo, as primeiras estrelas apontavam no céu, mas ela não tinha vontade de regressar para uma casa vazia. Os colegas até lhe fizeram um almoço surpresa, a mãe ligou-lhe logo cedo, os amigos ligaram para a convencer a comemorar num bar, mas ela boicotou as investidas, alegando que estava cansada e tinha trabalho logo cedo.
No carro o rádio anunciava as 21 horas, alertava para as notícias, mas o pensamento dele estava longe dali. A cena que ele imaginava incluía beijos, abraços, risos, flores, jantar e sexo… Não necessariamente por esta ordem. Sorriu e voltou a olhar para o telemóvel…
Ela resolveu voltar a pé para casa, tinha tempo e as noites ainda eram amenas. Voltou a pensar nele, curiosamente sentiu uma certa nostalgia. Encolheu os ombros, ajeitou o cabelo e respirou fundo, até ontem achava que tinha tomado a decisão certa, hoje já não tinha tanta certeza. Sentiu saudades…
Ele lembrou-se da última noite que passaram juntos, onde os beijos foram trocados por palavras cruéis, os abraços por gestos brutos, e por toda a casa ficaram espalhados pedaços de amor por fazer, no fim da noite só a ausência dela permanecia intacta.
Doíam-lhe os pés, estava cansada, triste, só… sentiu vontade de chorar, até o teria feito se não fosse a sua vizinha meter conversa, normalmente teria gostado de uns minutos de cavaqueira, mas hoje não lhe apetecia, arranjou uma desculpa e subiu.
Ele continuava às voltas pela cidade, por momentos pensou que se ao menos soubesse onde ela morava… Abanou a cabeça com violência, se não tinha coragem para lhe ligar, quanto mais ir a casa dela. Não era covardia, simplesmente respeito pela vontade dela, só não sabia se o “não me procures mais” englobava o dia de aniversário.
Entrou em casa, descalçou os malvados sapatos, colocou a água a correr na banheira, despiu-se e entrou na água quente cheia de espuma, fechou os olhos e relaxou. Estava tudo perfeito, até que ele invadiu-lhe novamente o pensamento… diabos, pensou ela… hoje não! Até que uma mensagem a despertou da letargia… olhou para o visor e o seu coração quase parou de bater.
“Ponderei durante horas se o devia fazer ou não, mas resolvi sabotar o silêncio imposto por ti. Parabéns Sara, espero que estejas feliz, ass: André”
Chorou… não, não estava feliz… sentia a falta dele todos os dias, mas era orgulhosa demais para o admitir. Afinal ele não esqueceu o dia, ele não a esqueceu. Saltou da banheira num pulo, e mesmo molhada respondeu-lhe:
“Senti tanto a tua falta, vem…”
A visão embaçada pelas lágrimas não o deixavam ver bem a estrada, o coração estava a ponto de sair disparado pela boca, o corpo tremia e chamava por ela.
Hoje, ele tinha a certeza… o amor não ficaria por fazer…

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A azáfama nos bastidores do evento é tão grande que podia equiparar-se a Paris, Milão ou Nova Iorque, mas não… é Lisboa, depois de alguns anos ela está de regresso à cidade que a viu nascer. Sentada na mesa de maquilhagem olha fixamente para a frente, embora lá esteja um espelho, Haras não se vê reproduzida nele, o seu olhar acompanha a sua mente numa viagem à infância.
Nascera numa comunidade pobre na periferia de Lisboa, filha de mãe holandesa e pai africano. Cedo descobriu que não iria ter uma vida fácil, o seu pai morreu quando ela tinha 5 anos e a partir daí tudo se complicou quando a mãe começou a chegar a casa cada vez mais tarde, deixando-a aos cuidados da avó paterna.
Haras (nome escolhido em homenagem à avó materna {Sarah} que ela nunca conheceu), tinha os olhos verdes da mãe e a tez morena do pai, que lhe dava um ar estranho, e que a fazia chorar compulsivamente sempre que era alvo das brincadeiras dos colegas.
[Mais tarde viria a descobrir que o seu ar estranho em Paris se chamava exótico].
Sempre fora uma criança tímida, que preferia ficar em casa em vez de brincar na rua, escondia-se no quarto humilde e sonhava em ser actriz. Quando tinha 10 anos a mãe morreu de overdose e ela foi entregue definitivamente à guarda da sua velha avó, estava só no mundo!
Quando tinha 15 anos foi passar uma temporada na praia ao abrigo de uma instituição que ajudava crianças órfãs, de manhã ajudava a cuidar dos mais novos e à tarde aproveitava para tomar longos banhos de mar. Foi numa dessas idas à praia que conheceu alguém que mudaria a sua vida para sempre.
Ana era fotógrafa de uma conceituada marca de lingerie e viu naquela adolescente uma modelo com potencial. Alta, pernas longas, magra, morena sem chegar ao tom mulato e olhos tão verdes como aquele mar ao final do dia…
Haras lembra-se do dia em que ela lhe perguntou se lhe podia tirar umas fotos, encolheu os ombros e movimentou a cabeça afirmativamente, simplesmente não se importava.
A partir daquele dia tudo mudou, viu a sua avó assinar uns papéis, mandaram-na fazer a mala e seguiu com a fotógrafa num carro enorme rumo a Paris.
Foi viver num apartamento com mais três raparigas, estudava de manhã numa escola de moda e praticava à tarde numa passerelle de um velho teatro. Viveu dias difíceis, chorou noites inteiras com saudades da avó, mas sobreviveu e venceu. Desfilou para os maiores costureiros do mundo, viveu em Milão, Munique e Nova Iorque, Paris era a sua casa, nunca mais voltou a Lisboa e não tinha perdoado a avó por a ter cedido aquela gente.
Hoje tem um estatuto que poucas conhecem, é modelo exclusiva da Casa Versace.
Hoje tem um camarim só dela, uma cadeira forrada a veludo verde, e fotos espalhadas pelo mundo.
Hoje tem uma conta bancária com tantos zeros como a idade que tinha quando perdeu a mãe.
Hoje tem quase trinta anos… e continua só…
Hoje escolheu Lisboa para encerrar a sua carreira de modelo.
Hoje será a última a desfilar, encerrará o desfile com um modelo de noiva exuberante.
Hoje fará as pazes com o passado…
Batem-lhe à porta anunciando que está na hora, ela levanta-se lentamente, calça os sapatos, olha-se mais uma vez ao espelho, retoca o batom, agarra com as duas mãos no vestido imaculadamente branco e lança-se no corredor que a levará à derradeira viagem pela passerelle.
Os fotógrafos acotovelam-se para conseguir a melhor foto, as pessoas cochicham entre elas, Haras não sabe se falam dela ou do vestido, dá mais duas voltas e regressa com todas as modelos e o estilista, agradecem ao público e retiram-se…
Respira fundo, e dirige-se apressada para o camarim. Declina o convite para o cocktail alegando sentir-se cansada, no fundo quer fugir dos paparazzi e das perguntas indiscretas. Veste umas calças de ganga, uma t-shirt, calça uns ténis, retira toda a maquilhagem, apanha os cabelos num coque pega na mochila e sai. Já na rua procura um táxi, aquela hora não é fácil, afinal está em lisboa e não em Nova Iorque, sorri e caminha pela avenida até que aparece um, faz-lhe sinal e ele para. Sorri-lhe, mas ele não retribui, pergunta-se se estará aborrecido pela hora tardia se pela cor dela. (Poucas coisas mudaram em Lisboa). Entra no táxi e diz-lhe o destino, agora sim ele está mesmo aborrecido, Haras nota que ele resmunga e ela sorri por dentro. Passados uns minutos ele pára o táxi:
"Pronto menina, chegamos a Chelas, não sei se reparou que é madrugada, este local não é seguro, tem a certeza que quer ficar aqui?"
Tenho! Eu nasci aqui, responde com orgulho.